Governo e Banco Mundial iniciam missão de identificação de um novo projecto de turismo sustentável, com o sector privado no centro da estratégia e enfoque na conversão do potencial turístico em investimento, empresas, fornecimento local e oportunidades de trabalho
- Governo e Banco Mundial estão a estruturar o Projecto de Turismo Sustentável para a Criação de Emprego em Moçambique — MozTurismo, através de uma missão de identificação que decorre entre 14 e 24 de Setembro;
- A iniciativa é apresentada como um instrumento económico e de investimento, e não apenas de promoção turística, procurando transformar activos naturais e culturais em negócios e emprego;
- O sector privado deverá ocupar posição central, através da mobilização de capital, desenvolvimento de empreendimentos e criação de cadeias de fornecimento;
- Hotelaria, restauração, transportes, agricultura, comércio, cultura e serviços surgem entre as actividades com potencial para beneficiar do aumento do investimento turístico;
- A missão deverá identificar áreas onde investimento e políticas públicas possam produzir maior impacto, mas o documento disponível ainda não apresenta orçamento, metas de emprego, geografias prioritárias ou dimensão financeira do futuro projecto;
- A abordagem coloca a criação de emprego liderada pelo sector privado como um dos resultados económicos centrais do futuro programa.
Turismo Passa A Ser Tratado Como Plataforma Económica
O Governo e o Banco Mundial iniciaram uma nova tentativa de converter o amplo património natural e cultural de Moçambique numa actividade económica de maior escala, colocando investimento privado, emprego e cadeias de fornecimento no centro da estratégia.
A abordagem está a ser desenvolvida através da Missão de Identificação do Projecto de Turismo Sustentável para a Criação de Emprego em Moçambique — MozTurismo, que decorre entre 14 e 24 de Setembro.
Segundo a informação disponibilizada pela AIM, o projecto pretende identificar oportunidades concretas para dinamizar o sector e ampliar a sua capacidade de produzir benefícios económicos para as populações.
A diferença essencial da abordagem proposta está na forma como o turismo é enquadrado.
O MozTurismo não é apresentado simplesmente como instrumento de promoção de destinos. A iniciativa procura tratar recursos naturais, praias, reservas, património cultural e paisagens como activos capazes de mobilizar investimento, suportar empresas e criar emprego.
Do Potencial Turístico Para A Economia Real
Moçambique dispõe de uma extensa costa, áreas de conservação, diversidade ecológica e património cultural com reconhecido potencial turístico.
Mas possuir estes activos não significa, por si só, produzir rendimento, emprego ou investimento.
É nesta diferença entre recurso disponível e recurso economicamente aproveitado que o MozTurismo pretende concentrar a intervenção.
A iniciativa procura criar condições para que os activos turísticos deixem de representar apenas potencial e passem a gerar rendimento, investimento e desenvolvimento local.
Na prática, isso implica que um destino turístico deixe de ser avaliado apenas pela sua atractividade e passe também a ser observado pela capacidade de sustentar hotéis, restaurantes, transportadores, produtores agrícolas, fornecedores, artesãos, operadores culturais e outros serviços.
Sector Privado Entra No Centro Da Estratégia
A arquitectura proposta atribui ao sector privado uma função particularmente relevante.
Segundo o documento, empresas e investidores deverão desempenhar um papel central na mobilização de capital, desenvolvimento de empreendimentos turísticos, criação de cadeias de abastecimento e geração de postos de trabalho.
Esta orientação é económica e institucionalmente significativa.
O turismo exige infra-estruturas públicas — acessos, energia, água, saneamento, conectividade, segurança e ordenamento territorial —, mas grande parte da capacidade de alojamento, restauração, entretenimento e prestação de serviços é criada por investimento empresarial.
O modelo que começa agora a ser identificado parece procurar precisamente essa divisão: políticas e investimento público destinados a criar condições para que capital privado possa posteriormente ampliar actividade económica e emprego.
Cada Hotel Pode Criar Uma Cadeia De Fornecedores
Um dos aspectos mais relevantes da abordagem está na tentativa de olhar para além do empreendimento turístico propriamente dito.
O documento identifica oportunidades ligadas à hotelaria, restauração, transportes, cultura, comércio, agricultura e outros serviços associados à cadeia de valor turística.
É nesta articulação que o turismo pode produzir um efeito económico mais amplo.
Um hotel que compra alimentos produzidos localmente cria procura para agricultura e agro-processamento. Um resort que contrata transporte, manutenção, serviços marítimos ou actividades culturais transfere uma parte das suas receitas para outros segmentos empresariais.
O mesmo acontece com artesanato, pesca, restauração, entretenimento e serviços profissionais.
Segundo a informação disponibilizada, o projecto pretende precisamente estimular esta rede de oportunidades, ligando novos investimentos a empresas e trabalhadores locais.
Emprego Torna-se Uma Métrica Central
A designação do próprio projecto — Turismo Sustentável para a Criação de Emprego — revela que a política pretende aproximar directamente crescimento turístico e mercado de trabalho.
A abordagem procura responder à necessidade de ampliar oportunidades de emprego através de actividades capazes de integrar empresas, comunidades e empreendedores locais.
Esta dimensão é particularmente importante porque o turismo possui capacidade para absorver diferentes níveis de qualificação.
Além das profissões directamente relacionadas com hotelaria, a actividade pode gerar procura por construção, logística, transporte, alimentação, agricultura, tecnologias, limpeza, segurança, marketing, serviços financeiros, entretenimento e outras actividades.
A intensidade desse efeito dependerá, porém, do grau de integração entre os empreendimentos e a economia doméstica.
Quanto maior for a parcela de bens e serviços adquiridos localmente, maior tende a ser o valor que permanece dentro da economia.
Banco Mundial Procura Identificar Onde Investimento Pode Ter Maior Efeito
A presença do Banco Mundial acrescenta outra dimensão ao processo.
Segundo a informação divulgada, a cooperação com o Governo procura identificar áreas onde investimento e políticas públicas possam produzir maior impacto, criando condições para crescimento sustentável e emprego liderado pelo sector privado.
É precisamente esta etapa que decorre actualmente.
Por se tratar ainda de uma missão de identificação, permanecem em aberto elementos determinantes para avaliar a escala económica efectiva do futuro MozTurismo.
O documento disponibilizado não indica, por exemplo, o montante financeiro previsto, as províncias ou corredores turísticos prioritários, o número de empresas a apoiar, metas de investimento privado ou quantidade de empregos a criar.
Essas variáveis serão particularmente importantes para distinguir uma estratégia nacional de turismo de um programa de investimento dirigido a geografias e segmentos específicos.
Uma Estratégia Que Pode Ligar Grandes Investimentos Às PME
A iniciativa surge num momento em que Moçambique começa igualmente a atrair novos investimentos privados no turismo de alto valor.
A possibilidade de articular grandes empreendimentos com cadeias domésticas de fornecimento poderá tornar-se um dos elementos económicos mais relevantes desta nova fase.
Para uma PME, o mercado turístico pode significar fornecer alimentos, bebidas, transportes, tecnologias, mobiliário, manutenção, serviços ambientais, produtos culturais ou experiências destinadas aos visitantes.
Para agricultores e pescadores, pode significar acesso regular a compradores empresariais.
Para comunidades localizadas em destinos turísticos, pode representar oportunidades empresariais ligadas a alojamento, restauração, artesanato, cultura ou actividades recreativas.
A dimensão económica do turismo aumenta precisamente quando essas ligações ultrapassam os limites do hotel e alcançam a economia que o rodeia.
De Número De Visitantes Para Valor Gerado
A abordagem do MozTurismo sugere ainda uma mudança importante na forma de medir o desempenho do sector.
O crescimento das chegadas internacionais continua a ser relevante, mas não oferece uma leitura completa do impacto económico.
Uma estratégia orientada para desenvolvimento precisa também de observar quanto cada visitante gasta, quanto tempo permanece, quantos bens e serviços compra localmente, quantas empresas nacionais participam na cadeia e quantos empregos são criados.
O documento que sustenta a missão chega a colocar explicitamente a criação de oportunidades para trabalhar, investir e desenvolver actividade económica como uma das medidas de sucesso do turismo.
Esta leitura aproxima o turismo da política de desenvolvimento empresarial.
MozTurismo Entra Agora Na Fase De Desenho
O MozTurismo encontra-se, por enquanto, numa etapa inicial.
A missão que termina a 24 de Setembro deverá ajudar Governo e Banco Mundial a identificar as oportunidades, constrangimentos e áreas de intervenção que poderão compor o futuro projecto.
Os elementos financeiros e operacionais que vierem a resultar desta fase serão determinantes para medir a sua dimensão.
Para a economia moçambicana, a proposta coloca uma questão concreta: até que ponto os activos turísticos do país podem ser transformados numa cadeia de investimento que ligue grandes operadores a PME, fornecedores, trabalhadores e comunidades locais?
O desafio e, simultaneamente, a aspiração é estabelecer essa ligação — entre património natural, capital privado e actividade empresarial — visando determinar o peso económico que o turismo venha a assumir na diversificação da economia nacional.



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