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Sexta-feira, 23 de Outubro de 2026
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Botswana Recebe US$ 75 Milhões da De Beers e Negocia Maior Participação na Gigante dos Diamantes Numa Viragem Estratégica Para África

O Botswana recebeu mil milhões de pulas, aproximadamente US$ 75 milhões, da De Beers para financiar um fundo de diversificação económica, ao mesmo tempo que negoceia aumentar de 15% para cerca de 25% a sua participação na multinacional diamantífera, actualmente controlada pela Anglo American. A conjugação das duas iniciativas evidencia uma estratégia orientada para ampliar a influência nacional na cadeia de valor dos diamantes e reduzir a dependência de uma indústria que enfrenta uma crise prolongada. O movimento encerra um significado para as economias africanas ricas em recursos naturais: a possibilidade de evoluírem da exploração e exportação de matérias-primas para uma participação mais relevante na propriedade das empresas, na comercialização e na criação de novas capacidades produtivas.

O
Redacção
23 Out 2026 · 12h46
22 minutos
93
Triagem de diamantes

Questões-Chave:

  • Financiamento à Diversificação: De Beers transferiu mil milhões de pulas para o Diamonds for Development Fund, equivalentes a aproximadamente US$ 75 milhões na referência do acordo;
  • Participação Accionista: Botswana detém 15% da De Beers e poderá elevar a sua posição para cerca de 25%, num processo negocial ainda sem transacção concluída;
  • Reestruturação Empresarial: Anglo American pretende vender os seus 85% na De Beers, depois de sucessivas perdas de valor associadas à deterioração do mercado de diamantes naturais;
  • Dependência Estrutural: Diamantes têm representado historicamente cerca de 80% das receitas de exportação, um terço das receitas públicas e aproximadamente um quarto do PIB do Botswana;
  • Diversificação Produtiva: Novo fundo deverá financiar industrialização, competitividade das exportações, desenvolvimento empresarial e criação de emprego, sob a liderança de Akinwumi Adesina;
  • Soberania Económica Africana: Iniciativa introduz uma referência para a participação dos Estados produtores na propriedade e nas cadeias de valor internacionais;
  • Lições Para Moçambique: Experiência evidencia a importância da governação dos recursos naturais, do conteúdo local e da utilização das receitas extractivas para desenvolver actividades produtivas competitivas.

Botswana Mobiliza Riqueza Diamantífera Para Construir Novas Fontes de Crescimento

O Botswana está a desenvolver duas iniciativas de natureza distinta, mas estrategicamente complementares, que poderão influenciar a forma como as economias africanas produtoras de recursos naturais encaram a propriedade dos seus activos e a transformação da riqueza extractiva em desenvolvimento económico.

A primeira já se concretizou: a De Beers transferiu mil milhões de pulas para o Diamonds for Development Fund, um instrumento criado em parceria com o Governo do Botswana para apoiar a diversificação da economia, a industrialização, o desenvolvimento empresarial e a criação de emprego.

A segunda permanece em negociação: o Governo pretende ampliar a participação que detém na De Beers, aproveitando o processo de alienação da posição maioritária da Anglo American, proprietária de 85% da empresa.

O anúncio da transferência financeira foi efectuado a 21 de Outubro, através de um comunicado conjunto do Governo e da De Beers. O montante representa a contribuição inicial destinada a permitir que o fundo avance da fase de estruturação institucional para a implementação dos seus programas de investimento.

Segundo a De Beers, o fundo foi concebido para utilizar rendimentos provenientes dos diamantes como catalisadores de investimento noutras actividades económicas, mobilizando recursos adicionais de instituições financeiras nacionais, investidores privados e parceiros internacionais.

A ministra dos Recursos Minerais e Energia do Botswana, Bogolo Kenewendo, apresentou a iniciativa como um instrumento de transformação económica, destinado a converter o valor dos recursos diamantíferos em prosperidade de longo prazo e a desenvolver indústrias, empresas e competências para uma nova fase do desenvolvimento nacional.

A estratégia reflecte o reconhecimento de uma realidade estrutural: embora os diamantes tenham desempenhado um papel decisivo na expansão económica do Botswana desde a independência, em 1966, a concentração das exportações e das receitas públicas numa única matéria-prima tornou o país vulnerável às alterações da procura e dos preços internacionais.

O objectivo do fundo consiste em aproveitar os rendimentos de uma actividade madura para financiar a expansão de sectores que possam gerar receitas, emprego e exportações independentemente do desempenho futuro da indústria diamantífera.

Diamantes Financiaram Desenvolvimento, Mas Dependência Tornou-se Vulnerabilidade

O Botswana constitui um dos casos africanos mais frequentemente referidos nos estudos sobre a gestão económica dos recursos naturais.

Ao longo de várias décadas, o país utilizou receitas provenientes da exploração de diamantes para financiar infra-estruturas, educação, saúde e outros serviços públicos, alcançando progressos económicos e sociais significativos.

Contudo, o sucesso na mobilização das receitas minerais não foi acompanhado por uma diversificação produtiva suficiente para reduzir substancialmente a exposição aos ciclos internacionais da indústria diamantífera.

Segundo referências históricas apresentadas pelo Fundo Monetário Internacional, os diamantes têm representado aproximadamente 80% das receitas de exportação, um terço das receitas fiscais e cerca de um quarto do Produto Interno Bruto do país.

Estas proporções são referências estruturais de períodos anteriores, não indicadores actualizados para Outubro de 2026. A sua importância reside em demonstrar a dimensão da dependência acumulada.

A vulnerabilidade tornou-se particularmente evidente com a deterioração recente do mercado de diamantes naturais, afectado pela concorrência dos diamantes produzidos em laboratório, pela procura enfraquecida em mercados consumidores relevantes e pela acumulação de inventários.

De acordo com a avaliação do FMI relativa a 2025, a economia do Botswana contraiu 3% em 2024, acompanhando uma queda de 24% da produção mineira e de 34% da actividade de comercialização de diamantes.

O impacto não ficou circunscrito ao sector extractivo. A redução da actividade diamantífera afectou receitas externas, finanças públicas e perspectivas de crescimento, evidenciando a importância macroeconómica da principal indústria nacional.

A situação coloca em destaque um problema clássico das economias dependentes de recursos naturais: a capacidade de transformar receitas extraordinárias de um sector dominante em investimentos capazes de sustentar actividades económicas diversificadas.

No caso do Botswana, a questão adquiriu urgência à medida que o mercado mundial de diamantes naturais passou a enfrentar mudanças que poderão revelar-se duradouras.

Fundo de Desenvolvimento Introduz Nova Estratégia de Alocação do Capital

A criação do Diamonds for Development Fund representa uma resposta institucional a esta vulnerabilidade.

O fundo dispõe agora de uma capitalização inicial de mil milhões de pulas e de uma estrutura de governação independente, presidida por Akinwumi Adesina, antigo presidente do Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB).

O conselho de administração é composto por dez membros, cabendo-lhe orientar a estratégia de investimento e assegurar a implementação dos programas de desenvolvimento económico.

A De Beers esclareceu que a contribuição inicial deverá funcionar como capital catalisador, permitindo mobilizar financiamento adicional de investidores privados, instituições financeiras domésticas e parceiros internacionais.

As áreas prioritárias incluem industrialização, competitividade das exportações, desenvolvimento empresarial, emprego e expansão das capacidades produtivas.

Ao comentar a disponibilização dos recursos, Adesina considerou que o desembolso representa um marco na passagem do fundo para a fase de implementação, permitindo desenvolver intervenções estratégicas destinadas a estimular uma economia mais diversificada.

O presidente executivo da De Beers, Al Cook, também destacou a importância de converter receitas diamantíferas em oportunidades económicas sustentáveis para além da actividade mineira.

A estrutura adoptada apresenta uma lógica económica relevante: utilizar recursos provenientes de uma actividade extractiva para apoiar investimentos que possam produzir bens e serviços, gerar exportações e criar emprego em sectores diferentes.

Contudo, a sustentabilidade do modelo exige uma carteira de projectos economicamente viáveis, capacidade de mobilização de financiamento privado e mecanismos transparentes de gestão do risco.

A transferência inicial de mil milhões de pulas representa um ponto de partida. O alcance efectivo do fundo será condicionado pelo volume adicional de capital mobilizado, pela qualidade dos investimentos seleccionados e pela capacidade das empresas financiadas para competir sem apoio financeiro permanente.

Anglo American Prepara Saída da De Beers e Botswana Negoceia Maior Participação

A criação do fundo coincide com um processo de reestruturação da propriedade da De Beers, uma das empresas mais influentes da indústria mundial de diamantes.

A Anglo American, que detém 85% da empresa, anunciou em Maio de 2024 a intenção de alienar a sua participação, no âmbito de uma reorganização da carteira de activos que privilegia actividades como o cobre e o minério de ferro.

O Governo do Botswana possui actualmente os restantes 15%.

Segundo uma reportagem da Bloomberg, publicada em 13 de Outubro de 2026 e reproduzida pela Reuters, o Botswana aproximou-se de um entendimento com o Global Diamond Consortium, liderado pelo antigo presidente executivo da De Beers, Gareth Penny, que poderá elevar a participação estatal para aproximadamente 25%.

O consórcio tinha emergido, em Julho, como comprador preferencial no processo de venda.

A Reuters ressalvou, contudo, que não tinha conseguido verificar de forma independente os termos da negociação. Até 23 de Outubro, não foi anunciada uma transacção definitiva.

A eventual alteração accionista representaria um aumento de dez pontos percentuais na posição do Botswana, mas o país continuaria a deter uma participação minoritária.

Esta distinção é fundamental para avaliar a dimensão do movimento. O Botswana ambiciona ampliar a sua influência sobre a empresa, mas a participação actualmente noticiada não equivale a controlo maioritário.

Angola e Namíbia também manifestaram interesse no processo, reflectindo a importância estratégica da De Beers para países africanos produtores de diamantes.

A participação destes Estados, caso venha a concretizar-se, poderá introduzir uma dimensão regional na estrutura accionista da empresa, embora ainda não exista uma configuração final confirmada.

Desvalorização da De Beers Acrescenta Risco à Ambição Accionista

A possível aquisição de uma participação adicional ocorre numa altura em que o negócio de diamantes naturais enfrenta dificuldades financeiras significativas.

Nos resultados anuais de 2025, apresentados em Fevereiro de 2026, a Anglo American reconheceu uma imparidade de US$ 2,3 mil milhões relacionada com a De Beers.

Após este ajustamento e outros movimentos contabilísticos, o valor contabilístico do negócio De Beers, considerado globalmente, situou-se em cerca de US$ 2,3 mil milhões, dos quais US$ 1,9 mil milhões correspondiam à participação atribuível à Anglo American.

A empresa justificou a revisão com perspectivas de preços menos favoráveis, procura enfraquecida, concorrência dos diamantes sintéticos e disponibilidade de diamantes brutos superior às necessidades imediatas do mercado.

O valor contabilístico não corresponde necessariamente ao preço de venda da empresa. Uma avaliação de aquisição terá de considerar activos, passivos, perspectivas futuras de geração de caixa, riscos comerciais e condições específicas da negociação.

Ainda assim, a deterioração financeira introduz um dilema para o Botswana.

A aquisição de uma posição accionista superior poderá assegurar maior participação nas decisões estratégicas e nos resultados futuros da empresa. Mas também representará um aumento da exposição financeira do Estado a um sector que atravessa uma crise de procura e enfrenta transformações na estrutura concorrencial.

Em Setembro, o vice-presidente e ministro das Finanças do Botswana, Ndaba Gaolathe, afirmou à Bloomberg que o Governo pretendia aumentar a sua participação na De Beers, mas teria de ponderar cuidadosamente o custo da operação.

A autoridade reconheceu que o país não podia comprometer recursos financeiros de forma irresponsável, mesmo perante a importância estratégica dos diamantes para a economia nacional.

A observação ilustra uma tensão central entre soberania económica e disciplina financeira.

A participação accionista numa empresa estratégica pode ampliar a influência nacional, mas a sua sustentabilidade está associada ao preço de aquisição, aos riscos assumidos e à rentabilidade futura do investimento.

Botswana Já Participa na Extracção e Avança no Controlo da Comercialização

A eventual aquisição de uma participação adicional na De Beers integra uma estratégia que o Botswana vem desenvolvendo há vários anos para aumentar a sua presença na cadeia diamantífera.

O Estado já detém 50% da Debswana, empresa mineira constituída em parceria com a De Beers, responsável pela exploração de algumas das principais minas de diamantes do país.

Além dessa participação, o Botswana ampliou os seus direitos de comercialização através da Okavango Diamond Company, empresa estatal especializada na venda de diamantes brutos.

Nos acordos formalizados em Fevereiro de 2025, o Governo e a De Beers estabeleceram que a Okavango passaria a comercializar 30% da produção da Debswana durante os primeiros cinco anos, aumentando essa proporção para 40% no período seguinte. Uma eventual extensão contratual permitirá atingir 50%.

O acordo incluiu igualmente a renovação das licenças mineiras por 25 anos, até 2054, assegurando um horizonte de exploração de longo prazo para os principais activos da parceria.

Estes instrumentos evidenciam que o Botswana já exerce influência directa sobre a produção e uma parcela crescente da comercialização dos seus diamantes.

A negociação accionista na De Beers introduz uma dimensão adicional: a possibilidade de aumentar a participação numa empresa internacional que integra actividades de exploração, comercialização, promoção e distribuição de diamantes.

Do ponto de vista económico, a diferença é significativa. A participação na extracção permite captar rendimentos da produção; a comercialização proporciona acesso directo aos compradores e à formação dos preços; a propriedade accionista pode conferir influência estratégica sobre a empresa e direitos sobre os seus resultados financeiros.

É esta combinação de instrumentos que distingue a estratégia do Botswana de uma abordagem centrada exclusivamente na cobrança de receitas fiscais e royalties.

Da Soberania Sobre os Recursos ao Controlo da Criação de Valor

O movimento do Botswana encerra um simbolismo que ultrapassa a indústria diamantífera e as fronteiras nacionais.

Durante décadas, uma parte significativa das economias africanas participou no comércio internacional predominantemente como fornecedora de matérias-primas, enquanto segmentos mais sofisticados das cadeias de valor — transformação industrial, tecnologia, financiamento, comercialização e distribuição — permaneceram frequentemente concentrados em empresas e centros económicos externos.

A eventual ampliação da participação do Botswana na De Beers representa a ambição de alterar gradualmente esta relação.

A iniciativa evidencia uma evolução possível da soberania jurídica sobre os recursos naturais para uma presença mais significativa nas estruturas empresariais responsáveis pela sua transformação e comercialização.

Esta distinção pode ser compreendida através de três dimensões complementares.

A primeira corresponde à soberania sobre os recursos, exercida através da legislação, da regulação e da atribuição de concessões.

A segunda relaciona-se com a participação nos rendimentos gerados pela exploração, nomeadamente através de impostos, royalties, dividendos e outras receitas.

A terceira envolve a capacidade de participar na propriedade das empresas, influenciar decisões estratégicas, desenvolver competências industriais e comerciais e captar uma parcela superior do valor criado ao longo da cadeia produtiva.

O Botswana já possui instrumentos relevantes nas três dimensões. A negociação com o potencial comprador da De Beers indica a intenção de ampliar a terceira.

O significado para África reside na possibilidade de os países produtores evoluírem de uma posição predominantemente extractiva para uma presença mais relevante na estrutura económica que transforma os recursos naturais em riqueza.

Contudo, essa evolução não deve ser confundida com a simples expansão da propriedade estatal. A participação accionista pode aumentar a influência nacional, mas também exige capacidade financeira, governação empresarial e uma avaliação rigorosa do retorno dos investimentos.

A soberania económica efectiva relaciona-se igualmente com a capacidade de desenvolver empresas competitivas, tecnologia, competências e instituições capazes de sustentar actividades produtivas diversificadas.

Um Potencial Ponto de Viragem na Relação Entre África e as Multinacionais

A história económica africana está marcada por modelos de exploração de recursos naturais em que o investimento estrangeiro desempenhou um papel decisivo na mobilização de capital, tecnologia e acesso aos mercados internacionais.

Essas parcerias permitiram desenvolver importantes indústrias extractivas e infra-estruturas, mas nem sempre produziram ligações suficientemente profundas com as economias nacionais.

A limitada integração de fornecedores locais, a concentração dos processos de transformação no exterior e a dependência de tecnologias importadas reduziram, em vários casos, os benefícios económicos indirectos da exploração.

A iniciativa do Botswana poderá contribuir para uma abordagem diferente, na qual a participação dos países produtores nas grandes empresas internacionais seja acompanhada por mecanismos de desenvolvimento industrial, formação de competências e diversificação produtiva.

A questão não está necessariamente na substituição do investimento estrangeiro pelo capital estatal.

A experiência internacional demonstra que as parcerias entre Estados e empresas privadas podem desempenhar funções importantes no desenvolvimento de sectores estratégicos, desde que existam regras claras, repartição equilibrada dos riscos e mecanismos adequados de governação.

O movimento do Botswana introduz, neste contexto, a possibilidade de uma relação mais exigente entre os Estados africanos e as multinacionais que operam nos seus territórios.

A negociação poderá atribuir maior importância à participação accionista, à capacidade de decisão, à transferência de competências e à integração de empresas nacionais nas cadeias produtivas.

O carácter transformador dessa abordagem dependerá, contudo, da sua concretização e dos resultados alcançados.

Uma participação minoritária na De Beers não altera automaticamente a posição do Botswana nos mercados internacionais. A influência efectiva do Estado continuará associada aos direitos accionistas, aos acordos de governação, à competitividade da empresa e à sua capacidade para gerar resultados.

Botswana Coloca em Evidência o Dilema da Maldição dos Recursos

O caso apresenta igualmente uma dimensão relevante para a economia do desenvolvimento.

O Botswana conseguiu utilizar receitas minerais para financiar parte importante da transformação económica e social do país. Ainda assim, a sua estrutura produtiva continua fortemente dependente de uma matéria-prima sujeita a oscilações internacionais.

A situação encontra correspondência no debate sobre a chamada maldição dos recursos naturais, conceito utilizado para explicar por que razão a abundância de matérias-primas nem sempre se traduz em economias diversificadas, produtivas e sustentáveis.

Um dos mecanismos associados a este fenómeno é a doença holandesa, que pode ocorrer quando a expansão de receitas provenientes dos recursos naturais contribui para a valorização real da moeda ou para o aumento dos custos internos, prejudicando a competitividade de outros sectores transaccionáveis.

A existência de recursos naturais não determina, por si só, esse resultado. A qualidade das instituições, a gestão das receitas, a política macroeconómica e a capacidade de investimento produtivo desempenham funções decisivas.

Ao comentar a criação do fundo, o presidente executivo da De Beers, Al Cook, chamou a atenção para a dificuldade de construir economias sustentáveis a partir de recursos finitos, referindo o risco de doença holandesa e a possibilidade de os benefícios económicos diminuírem à medida que a exploração dos recursos se reduz.

A observação ganha relevância perante as dificuldades actuais do sector diamantífero.

A deterioração da procura mundial demonstra que os riscos não resultam exclusivamente do eventual esgotamento físico dos recursos. Alterações tecnológicas, substituição de produtos e mudanças nas preferências dos consumidores podem reduzir o valor económico de uma matéria-prima antes de a sua exploração terminar.

A concorrência dos diamantes produzidos em laboratório constitui um exemplo dessa transformação.

O Botswana enfrenta, portanto, a necessidade de diversificar a sua economia enquanto a principal indústria nacional continua a gerar recursos financeiros, competências e oportunidades comerciais.

A criação do fundo procura utilizar precisamente essa capacidade remanescente para desenvolver alternativas produtivas.

Uma Referência Para Economias Africanas Ricas em Petróleo, Gás e Minerais

A experiência do Botswana apresenta implicações estratégicas para outras economias africanas dependentes dos recursos naturais.

Angola, Namíbia, Moçambique, República Democrática do Congo, Zâmbia e Guiné possuem estruturas produtivas diferentes, mas enfrentam questões relacionadas com a participação nacional na exploração, na transformação e na comercialização das suas matérias-primas.

A possibilidade de aumentar a participação accionista numa multinacional internacionalmente estabelecida poderá ampliar o debate sobre modelos de propriedade e governação dos recursos estratégicos.

Contudo, a experiência também evidencia os limites de uma estratégia exclusivamente centrada na aquisição de activos.

Um Estado que aumenta a sua participação numa empresa extractiva amplia simultaneamente os seus direitos sobre os resultados e a exposição financeira aos riscos do sector.

Por esse motivo, a iniciativa do Diamonds for Development Fund assume um significado complementar.

Ao direccionar recursos provenientes dos diamantes para novas actividades económicas, o Botswana apresenta uma estratégia que combina influência sobre a indústria existente com a construção de fontes alternativas de crescimento.

Para as economias africanas, esta combinação poderá oferecer ensinamentos mais relevantes do que uma expansão accionista considerada isoladamente.

A utilização de receitas extractivas para financiar indústria transformadora, agricultura, turismo, tecnologia e serviços especializados pode contribuir para reduzir a concentração económica, ampliar exportações e criar empregos em actividades menos expostas às oscilações das matérias-primas.

O desafio encontra-se na capacidade de seleccionar investimentos competitivos, mobilizar financiamento privado, desenvolver competências e assegurar instituições capazes de gerir os recursos com transparência.

O simbolismo continental torna-se, assim, particularmente expressivo: a riqueza natural pode servir para financiar a construção de uma economia cuja prosperidade futura já não esteja directamente condicionada por esses mesmos recursos.

Moçambique e a Agenda de Independência Económica

A estratégia do Botswana apresenta particular interesse para Moçambique, num momento em que o país está a aprofundar a sua agenda de Independência Económica, industrialização e valorização dos recursos naturais.

Os grandes investimentos em gás natural, carvão, areias pesadas, grafite e outros minerais criam oportunidades para ampliar a produção, as exportações e as receitas fiscais.

Contudo, a experiência internacional mostra que a dimensão dos investimentos extractivos não determina automaticamente a intensidade das ligações com a economia nacional.

A capacidade de converter esses investimentos em desenvolvimento económico estará associada à criação de emprego, à qualificação da mão-de-obra, à participação das empresas moçambicanas nas cadeias de fornecimento e ao desenvolvimento de actividades industriais e comerciais complementares.

Neste contexto, a experiência do Botswana evidencia a importância de combinar instrumentos de participação nacional com políticas de diversificação produtiva.

A presença do Estado em empreendimentos estratégicos pode proporcionar influência e rendimentos financeiros, enquanto mecanismos de conteúdo local podem estimular a contratação de empresas nacionais e a formação de competências.

Por sua vez, instrumentos como o Fundo Soberano de Moçambique e o Banco de Desenvolvimento podem desempenhar papéis relevantes na gestão dos recursos financeiros e no financiamento de investimentos estruturantes, respeitando os respectivos mandatos e modelos de governação.

A lição central está na articulação entre estas diferentes políticas.

Uma estratégia assente exclusivamente no aumento da participação accionista em grandes empreendimentos pode ampliar a exposição do Estado a riscos comerciais, sem assegurar necessariamente ganhos proporcionais de produtividade ou emprego.

Da mesma forma, a criação de fundos e instituições financeiras não garante, isoladamente, a diversificação da economia.

Os resultados dependem da qualidade dos projectos financiados, da competitividade das empresas beneficiárias e da capacidade de integração dos investimentos nas cadeias de valor nacionais e internacionais.

O Botswana apresenta, neste domínio, uma referência importante pela conjugação entre instrumentos de participação accionista, direitos de comercialização e um fundo destinado a desenvolver sectores não extractivos.

Para Moçambique, cuja expansão dos grandes projectos energéticos e minerais ainda oferece oportunidades de estruturar ligações produtivas desde fases relativamente iniciais, a experiência aconselha a antecipação das políticas de diversificação.

A consolidação de uma economia excessivamente dependente dos recursos naturais pode tornar os ajustamentos futuros mais difíceis, sobretudo quando os preços internacionais recuam ou as condições tecnológicas e comerciais se alteram.

Entre Possuir a De Beers e Construir Uma Economia Menos Dependente dos Diamantes

O Botswana encontra-se perante duas decisões estratégicas que poderão influenciar a sua trajectória económica nas próximas décadas.

A primeira consiste em definir a dimensão da participação que pretende deter na De Beers e as condições financeiras em que essa posição poderá ser adquirida.

A segunda envolve a capacidade de utilizar os rendimentos gerados pela indústria diamantífera para financiar novas actividades produtivas, diversificar as exportações e criar oportunidades de emprego.

Os dois objectivos são complementares, mas apresentam horizontes e riscos diferentes.

A participação accionista na De Beers poderá proporcionar influência estratégica e rendimentos futuros, caso a empresa recupere rentabilidade. A diversificação produtiva, por sua vez, exige investimentos com períodos de maturação potencialmente longos, mas poderá reduzir a exposição estrutural da economia às oscilações do mercado de diamantes.

A criação do Diamonds for Development Fund representa, neste sentido, uma decisão concreta de afectação de recursos à transformação económica, enquanto o aumento da posição accionista permanece em negociação.

O movimento apresenta um significado que ultrapassa o Botswana.

Num continente onde a abundância de recursos naturais tem frequentemente coexistido com limitada industrialização e forte dependência externa, a possibilidade de ampliar a participação africana na propriedade das empresas, nos mercados e nas cadeias de valor constitui uma evolução estratégica.

Mas a experiência também introduz uma advertência: a soberania económica não se esgota na titularidade dos recursos nem na percentagem de capital detida numa empresa internacional.

A sua dimensão mais substantiva reside na capacidade de transformar riqueza natural em competências, empresas, tecnologia, emprego e actividades económicas competitivas.

O Botswana poderá tornar-se uma referência africana desta transição. A sua maior conquista, porém, não será necessariamente possuir uma parcela superior da De Beers. Será conseguir que a prosperidade do país deixe de estar tão estreitamente associada ao destino dos diamantes.

É nessa distinção — entre possuir a riqueza existente e construir novas fontes de riqueza — que se encontra uma das questões mais importantes para o futuro económico de África.

O
Redacção

Oeconomico

Informação e análise económica sobre Moçambique e a África Austral.

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