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Sábado, 24 de Outubro de 2026
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Mobilizados US$ 117 Milhões Para Recuperação Agrária, Mas Seca Ameaça Nova Campanha de Produção

O Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas anunciou a mobilização de cerca de US$ 117 milhões, com apoio dos parceiros de desenvolvimento, para responder aos efeitos das cheias e inundações sobre o sector agrário. Paralelamente, estão disponíveis US$ 75 milhões para medidas de contingência associadas à seca e aos riscos do fenómeno El Niño na campanha 2026/27. Os programas prevêem assistência a mais de 185 mil agricultores familiares, distribuição de insumos, pequenas infra-estruturas de regadio e reforço da extensão rural. A dimensão dos recursos mobilizados coloca em evidência a necessidade de converter o financiamento de emergência em recuperação produtiva, maior resiliência climática e segurança alimentar.

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Redacção
24 Out 2026 · 11h31
12 minutos
158
Responsável fala à imprensa em Maputo

Questões-Chave:

  • Financiamento Agrário: Governo anunciou a mobilização de US$ 117 milhões para intervenções de recuperação e emergência no sector, com apoio dos parceiros de desenvolvimento;
  • Resposta à Seca: Plano de contingência dispõe de US$ 75 milhões para apoiar medidas de mitigação dos impactos climáticos na campanha agrária 2026/27;
  • Apoio aos Produtores: Intervenções previstas deverão beneficiar mais de 185 mil agricultores familiares, numa área estimada em 93.750 hectares;
  • Meios de Produção: Programa contempla distribuição de sementes, material de plantação, pequenos sistemas de irrigação e equipamento tecnológico para extensão rural;
  • Riscos Climáticos: Dos 70 distritos identificados como expostos à seca, 31 foram abrangidos pela intervenção anunciada;
  • Desenvolvimento Agrário: Eficácia do financiamento estará associada à recuperação das áreas produtivas, qualidade dos insumos, assistência técnica e capacidade de comercialização das colheitas.

Recuperação Agrária Mobiliza US$ 117 Milhões Após Cheias e Inundações

O Governo moçambicano mobilizou, com apoio dos parceiros de desenvolvimento, cerca de US$ 117 milhões, equivalentes a aproximadamente 7,4 mil milhões de meticais, para financiar intervenções de recuperação do sector agrário afectado pelas cheias e inundações registadas no primeiro trimestre de 2026.

A informação foi avançada pelo ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Mito Albino, durante uma sessão de partilha de informação realizada em Maputo, no contexto da preparação da campanha agrária 2026/27.

Segundo a edição de 24 de Outubro do jornal Notícias, os recursos destinam-se a apoiar a recuperação das actividades produtivas das comunidades atingidas pelas calamidades, num período em que o sector enfrenta simultaneamente os efeitos das inundações anteriores e os riscos de seca associados ao fenómeno El Niño.

A mobilização de financiamento ganha particular importância devido ao peso da agricultura na subsistência das famílias rurais e na disponibilidade de alimentos no mercado nacional.

Em muitas comunidades, a perda de culturas provocada pelas cheias é acompanhada pela destruição de infra-estruturas de regadio, degradação dos solos e redução das reservas de sementes necessárias à campanha seguinte.

A recuperação exige, por isso, intervenções capazes de restabelecer rapidamente as condições de produção e reduzir a vulnerabilidade a novos episódios climáticos extremos.

Os US$ 117 milhões agora referidos correspondem a recursos que o Governo já havia anunciado como mobilizados no âmbito de um Plano de Emergência Agrária avaliado em US$ 148 milhões, e não necessariamente a um financiamento inteiramente novo. Em Maio, o Executivo indicara que o montante mobilizado representava aproximadamente 79% das necessidades inicialmente identificadas.

Seca e El Niño Introduzem Nova Pressão Sobre a Campanha 2026/27

A resposta às cheias decorre num contexto de agravamento dos riscos climáticos para a agricultura.

Segundo Roberto Mito Albino, encontram-se disponíveis US$ 75 milhões para a implementação de medidas de contingência destinadas a mitigar os efeitos da seca na campanha agrária 2026/27.

O financiamento deverá apoiar produtores em 31 distritos, num universo de 70 distritos identificados como estando em risco de serem afectados pelo fenómeno El Niño.

O jornal Notícias refere que aproximadamente 75% dos recursos disponíveis para a componente agrária deverão ser direccionados ao investimento agrícola, correspondendo a quase US$ 50 milhões, segundo a apresentação governamental.

A repartição exacta destes montantes e a sua relação contabilística com os US$ 117 milhões anteriormente mobilizados carecem de maior detalhe público. Por essa razão, não é possível afirmar que os US$ 75 milhões constituam integralmente financiamento adicional.

A perspectiva de seca coloca a agricultura moçambicana perante uma vulnerabilidade recorrente: a forte dependência da precipitação natural e a limitada cobertura de sistemas de irrigação.

A irregularidade das chuvas influencia as épocas de sementeira, o desenvolvimento das culturas e a capacidade de assegurar colheitas comercializáveis.

Quando os choques climáticos ocorrem em campanhas sucessivas, os produtores enfrentam dificuldades crescentes para recuperar o capital produtivo, adquirir sementes e financiar novas actividades.

Os riscos para a segurança alimentar são igualmente relevantes.

A FEWS NET advertiu, ao longo de 2026, que a combinação de cheias, estiagens e outros factores de vulnerabilidade continua a limitar o acesso aos alimentos e aos rendimentos em diversas regiões do País, particularmente no Centro e no Sul.

A resposta de emergência deverá, assim, considerar a necessidade de evitar que as famílias atingidas por perdas sucessivas reduzam permanentemente a sua actividade agrícola.

Mais de 185 Mil Agricultores Deverão Beneficiar do Programa

O plano de contingência apresentado pelo Ministério da Agricultura prevê assistência directa a mais de 185 mil agricultores familiares, abrangendo uma área produtiva estimada em 93.750 hectares.

O apoio deverá incluir a distribuição de sementes, material vegetativo de plantação e insumos destinados a culturas alimentares consideradas prioritárias.

De acordo com a informação divulgada pelo Notícias, o programa contempla aproximadamente 145 mil conjuntos de insumos agrícolas que incluem sementes de milho e feijão, estacas de mandioca e ramas de batata-doce.

Estão igualmente previstos cerca de 40 mil conjuntos adicionais destinados a culturas como arroz, feijão e abóbora, acompanhados dos respectivos insumos.

O plano contempla ainda o aprovisionamento de 906 toneladas de sementes de milho, 1.013 toneladas de arroz e 1.452 toneladas de feijão, entre outras culturas essenciais.

A distribuição dos insumos poderá contribuir para recuperar áreas cultivadas e melhorar a capacidade de resposta dos produtores às condições climáticas adversas.

Contudo, a eficácia destas intervenções dependerá da qualidade das sementes, da adequação das variedades às condições agroecológicas e da entrega atempada aos beneficiários.

A utilização de sementes tolerantes à seca e de culturas de ciclo curto pode reduzir determinados riscos produtivos, mas os resultados variam em função da disponibilidade de água, das características dos solos e da aplicação de práticas agrícolas adequadas.

A capacidade de assegurar assistência técnica regular constituirá igualmente uma condição importante para melhorar a utilização dos insumos disponibilizados.

Irrigação e Extensão Rural Procuram Reduzir Dependência das Chuvas

O programa contempla investimentos em pequenas infra-estruturas de irrigação e reforço da capacidade dos serviços de extensão rural, com o objectivo de melhorar a produtividade e ampliar a utilização de tecnologias nas actividades agrícolas.

Segundo o Notícias, está prevista a aquisição de 76 drones, igual número de computadores e conjuntos de ligação à Internet por satélite, destinados aos supervisores da rede de extensão rural nos distritos identificados como vulneráveis ao El Niño.

O plano inclui ainda formação teórica e prática para utilização destes equipamentos.

A introdução de drones na agricultura pode favorecer actividades de observação das culturas, avaliação de áreas afectadas, identificação de problemas de desenvolvimento vegetal e recolha de informação para planeamento das intervenções.

A utilização de equipamentos digitais poderá também melhorar a comunicação entre os serviços técnicos e as estruturas responsáveis pela coordenação dos programas.

Contudo, o valor económico destas tecnologias dependerá da sua efectiva integração no trabalho quotidiano dos extensionistas.

A aquisição de equipamentos exige igualmente manutenção, conectividade, formação contínua e capacidade institucional para transformar os dados recolhidos em recomendações práticas para os agricultores.

O reforço da irrigação constitui outra dimensão relevante.

A existência de pequenos sistemas de regadio pode permitir maior flexibilidade nas épocas de produção e reduzir a exposição exclusiva às chuvas.

Todavia, a sustentabilidade destes sistemas está associada à disponibilidade de recursos hídricos, à manutenção dos equipamentos e à capacidade financeira e organizativa dos produtores.

No I Conselho Coordenador do Ministério, realizado em Outubro, Roberto Mito Albino já havia defendido o reforço da assistência técnica, a recuperação dos sistemas de regadio inoperacionais e a melhoria do controlo de qualidade das sementes.

Mobilização Financeira Precisa de Traduzir-se em Recuperação Produtiva

A disponibilização de recursos financeiros constitui uma condição importante para responder às calamidades, mas a dimensão do financiamento mobilizado não traduz automaticamente a recuperação da actividade agrícola.

A avaliação económica de programas desta natureza exige distinguir recursos anunciados, financiamento efectivamente desembolsado, despesas executadas e resultados produtivos alcançados.

Esta diferenciação assume particular importância quando os instrumentos de resposta abrangem componentes distintas, como sementes, irrigação, assistência técnica e equipamentos.

A distribuição de insumos pode facilitar a retoma da produção, mas o resultado deverá ser observado na área efectivamente cultivada, no rendimento por hectare e na quantidade de produtos disponíveis para consumo e comercialização.

Uma intervenção orientada exclusivamente para a reposição de meios perdidos poderá permitir que os agricultores retomem os níveis anteriores de actividade, sem necessariamente reduzir a vulnerabilidade a novas calamidades.

Em contrapartida, investimentos em gestão da água, utilização de variedades adaptadas, formação e infra-estruturas produtivas poderão contribuir para melhorias mais duradouras.

A distinção é particularmente relevante numa economia em que os riscos climáticos se repetem e podem comprometer sucessivas campanhas agrícolas.

A recuperação pós-cheias deve, por isso, ser articulada com medidas de adaptação que reduzam as perdas esperadas em futuros episódios extremos.

Produção Agrícola Precisa de Acesso Aos Mercados Para Gerar Rendimento

Uma dimensão frequentemente menos valorizada nos programas de recuperação agrária é a capacidade de comercialização da produção.

O fornecimento de sementes e outros insumos pode aumentar a disponibilidade de produtos agrícolas, mas a recuperação económica dos agricultores exige condições para transformar parte dessa produção em rendimento monetário.

No contexto moçambicano, as fragilidades das estradas rurais, as distâncias entre centros produtores e consumidores e a insuficiência de estruturas de armazenamento continuam a condicionar a integração dos mercados agrícolas.

Estas limitações podem produzir situações em que determinadas regiões apresentam excedentes comercializáveis, enquanto outras continuam a enfrentar preços elevados ou défices de abastecimento.

A redução destas assimetrias exige investimentos em infra-estruturas de transporte, armazenagem, agregação da produção e organização dos mercados.

O problema assume particular relevância após episódios de cheias, que frequentemente afectam estradas secundárias e caminhos de acesso às zonas agrícolas.

Nestas circunstâncias, a capacidade de recuperar a produção pode desenvolver-se mais rapidamente do que a recuperação das condições necessárias ao seu escoamento.

A articulação entre apoio produtivo e logística agrícola constitui, portanto, um elemento fundamental para assegurar que o financiamento mobilizado produza benefícios económicos efectivos.

A recuperação das colheitas poderá contribuir para melhorar o abastecimento dos mercados nacionais, reduzir pressões sobre os preços de determinados produtos alimentares e apoiar a recuperação dos rendimentos rurais, desde que existam condições comerciais adequadas.

Resiliência Climática Torna-se Condição Para a Transformação Agrária

A conjugação de cheias, inundações e secas demonstra a crescente importância da resiliência climática na planificação e execução das políticas agrícolas.

Em economias com elevada dependência da agricultura familiar, os choques climáticos apresentam consequências que ultrapassam a perda imediata das colheitas.

Podem reduzir os rendimentos das famílias, aumentar o endividamento informal, comprometer a aquisição de insumos para campanhas posteriores e estimular a venda de activos produtivos para assegurar necessidades básicas.

A recuperação torna-se progressivamente mais difícil quando os agricultores enfrentam calamidades em períodos consecutivos.

Por essa razão, a política agrária necessita de combinar instrumentos de resposta imediata com investimentos estruturais em irrigação, armazenamento de água, extensão rural, informação climática e sistemas de comercialização.

A melhoria da produtividade também depende da qualidade das sementes, da fertilidade dos solos, do acesso a equipamentos e da adopção de práticas agrícolas ajustadas às condições locais.

A capacidade de resposta do sector não pode ser avaliada exclusivamente pela disponibilidade de recursos financeiros em situações de emergência.

Importa igualmente desenvolver mecanismos permanentes de prevenção e adaptação que reduzam a frequência e a dimensão das perdas económicas.

A estratégia de transformação agrária deverá, neste sentido, integrar as intervenções de contingência climática na planificação dos investimentos produtivos e no desenvolvimento das cadeias de valor.

US$ 117 Milhões Mobilizados Colocam Execução e Resultados no Centro da Avaliação

A mobilização de US$ 117 milhões para a recuperação do sector agrário e a disponibilidade anunciada de US$ 75 milhões para medidas de contingência evidenciam a dimensão dos recursos necessários para responder aos efeitos das calamidades climáticas sobre a agricultura moçambicana.

O programa prevê apoiar mais de 185 mil produtores familiares, recuperar áreas cultivadas, distribuir insumos e melhorar as condições técnicas de produção.

Contudo, a concretização destes objectivos decorrerá num ambiente de risco climático elevado e de constrangimentos estruturais que continuam a limitar a produtividade agrícola.

A divulgação de informação sobre a execução financeira, os beneficiários efectivamente abrangidos e os resultados produtivos permitirá avaliar com maior rigor a eficácia das intervenções.

A recuperação deverá ser acompanhada por indicadores relativos à área efectivamente cultivada, aos rendimentos agrícolas, à disponibilidade de alimentos e à evolução dos rendimentos dos produtores.

Moçambique está a mobilizar recursos significativos para recuperar a produção agrícola e proteger as comunidades rurais contra novas calamidades. Mas a sucessão de cheias e secas evidencia uma fragilidade económica persistente: parte substancial do financiamento continua a ser destinada à reposição de capacidade produtiva anteriormente perdida. Reduzir este ciclo exige que os investimentos de recuperação também aumentem a produtividade, a segurança hídrica e a capacidade de comercialização dos agricultores, tornando progressivamente menos onerosa a resposta a futuros choques climáticos.

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Redacção

Oeconomico

Informação e análise económica sobre Moçambique e a África Austral.

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