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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2026
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Chapo Defende Soberania Africana Sobre Minerais e Gás Numa Disputa Global Que Coloca Segurança e Industrialização no Centro

O Presidente da República, Daniel Chapo, defendeu em Bahir Dar, na Etiópia, uma resposta africana coordenada à crescente competição internacional por minerais críticos, gás natural e petróleo. No XII Fórum de Tana, o estadista associou a protecção dos recursos estratégicos à segurança, à diversificação económica e à reforma das instituições multilaterais, apontando a experiência de Cabo Delgado como exemplo dos riscos enfrentados pelo continente. A intervenção ocorre quando a transição energética e a reorganização das cadeias industriais mundiais aumentam o valor estratégico das matérias-primas africanas, mas persistem limitações à transformação local e à retenção dos benefícios económicos.

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Redacção
26 Out 2026 · 09h31
14 minutos
70
Daniel Chapo intervém num painel do Fórum de Tana, em Bahir Dar

Questões-Chave:

  • Daniel Chapo defendeu maior cooperação africana para proteger minerais estratégicos, gás natural e petróleo, num contexto de crescente rivalidade geopolítica;
  • Presidente associou a experiência de Cabo Delgado à necessidade de reforçar os mecanismos regionais de segurança, sem apresentar provas de uma relação causal entre descobertas de recursos e terrorismo;
  • Soberania económica, diversificação produtiva, conteúdo local e criação de um banco de desenvolvimento foram apresentados como componentes da transformação da economia moçambicana;
  • União Africana considera que a riqueza extractiva deve gerar processamento industrial, competências técnicas, infra-estruturas e cadeias de valor regionais;
  • A experiência do Gana na gestão dos recursos minerais e a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas integraram a agenda diplomática do Chefe do Estado.

A crescente competição internacional pelos recursos naturais africanos voltou ao centro do debate sobre segurança, soberania económica e desenvolvimento, com o Presidente moçambicano, Daniel Chapo, a defender uma maior coordenação entre os países do continente para proteger as suas riquezas e ampliar a participação africana nas decisões estratégicas mundiais.

Intervindo no sábado, 24 de Outubro, no XII Fórum de Alto Nível de Tana sobre Segurança em África, realizado em Bahir Dar, na Etiópia, Chapo relacionou a disputa internacional por minerais críticos, gás natural e petróleo com as vulnerabilidades de segurança enfrentadas por vários países africanos.

O encontro, realizado de 23 a 25 de Outubro sob o tema Caminhos para a Paz em África: Soberania Económica e Transformação Geopolítica, reuniu dirigentes políticos, representantes de instituições continentais e especialistas para discutir a capacidade africana de assegurar segurança e desenvolvimento num ambiente internacional caracterizado por maior competição económica e estratégica.

Na sua intervenção, o Presidente moçambicano argumentou que África necessita de mecanismos de cooperação capazes de proteger os recursos naturais, prevenir conflitos e melhorar a sua posição nas relações económicas internacionais.

A preocupação insere-se num movimento mais amplo de valorização estratégica das matérias-primas utilizadas nas tecnologias de transição energética, armazenamento de electricidade, indústria electrónica e produção de equipamentos avançados.

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), os minerais críticos passaram a ocupar um lugar central nas agendas de segurança económica e energética, particularmente devido à concentração internacional das operações de processamento e refinação.

Cabo Delgado Coloca a Segurança dos Recursos no Centro do Debate

A experiência de Moçambique no combate ao terrorismo em Cabo Delgado constituiu uma das principais referências da intervenção presidencial.

Daniel Chapo chamou a atenção para a proximidade temporal entre as descobertas de grandes reservas de gás natural na região e o aparecimento de ataques terroristas, considerando necessária uma análise das relações entre recursos estratégicos, interesses geopolíticos e segurança.

“É coincidência demais que onde há descoberta de recursos, também apareceu o terrorismo.”

Com esta observação, o Chefe do Estado procurou salientar a importância de os países africanos coordenarem esforços para proteger as suas riquezas.

A coincidência temporal mencionada pelo Presidente não demonstra, por si só, uma relação causal entre as descobertas de gás e o surgimento da insurgência. O conflito em Cabo Delgado apresenta factores históricos, sociais, económicos e políticos que exigem análise própria.

Ainda assim, a concentração de investimentos energéticos de grande dimensão numa região afectada por violência armada torna a segurança um elemento determinante para o funcionamento dos projectos, a mobilização de financiamento e a actividade das empresas.

Os riscos associados à instabilidade podem elevar os custos de seguros, logística, protecção de instalações e contratação de serviços, afectando a rentabilidade e os calendários de execução dos empreendimentos.

A dimensão económica ultrapassa os investimentos extractivos: a insegurança também provoca deslocações populacionais, perturba a agricultura, limita o comércio e dificulta a prestação de serviços públicos.

Chapo destacou a cooperação bilateral com o Ruanda, a participação de forças da Tanzânia e a anterior intervenção da Missão da SADC em Moçambique (SAMIM) como exemplos da importância dos mecanismos regionais de segurança.

O Presidente reconheceu, contudo, que persistem ataques esporádicos, apesar de as vilas anteriormente ocupadas terem sido recuperadas pelas forças governamentais e suas aliadas.

A assistência humanitária às populações deslocadas permanece, segundo o estadista, uma das necessidades mais urgentes da província.

Recursos Minerais Ganham Peso na Reorganização da Economia Mundial

A intervenção de Chapo coincide com uma transformação significativa na importância económica e estratégica dos minerais africanos.

O relatório Global Critical Minerals Outlook 2026, publicado pela AIE em Julho, assinala que a segurança das cadeias de fornecimento se tornou uma preocupação central das principais economias industrializadas.

A instituição identifica riscos associados à elevada concentração do processamento de minerais utilizados em baterias, tecnologias renováveis, equipamentos electrónicos e sistemas industriais.

Entre Janeiro de 2025 e Abril de 2026, os preços de metais como cobre, alumínio e estanho aumentaram aproximadamente um terço, enquanto os preços do lítio mais do que duplicaram e os do cobalto subiram cerca de 130%, segundo a AIE.

A valorização reflectiu diferentes factores, incluindo restrições de oferta, procura tecnológica e limitações comerciais.

A instituição salienta que a diversificação internacional destas cadeias industriais exige investimentos em equipamentos especializados, competências técnicas, infra-estruturas e processos de transformação, cuja disponibilidade permanece concentrada num número relativamente reduzido de economias.

A questão é particularmente relevante para África, onde vários países possuem reservas importantes de minerais estratégicos, mas enfrentam limitações na sua capacidade de processamento industrial.

A exploração e exportação de matérias-primas permite gerar receitas e divisas. A transformação local, quando economicamente viável, pode ampliar a participação das empresas africanas nas cadeias produtivas e criar oportunidades de emprego qualificado.

Contudo, a industrialização mineira exige energia competitiva, infra-estruturas eficientes, financiamento de longo prazo, conhecimento tecnológico e acesso a mercados. A simples existência de reservas minerais não assegura estas condições.

É neste contexto que a defesa presidencial da soberania sobre os recursos naturais adquire uma dimensão económica mais abrangente: o controlo estratégico envolve igualmente a capacidade de negociar contratos, estabelecer prioridades industriais e desenvolver competências nacionais.

União Africana Defende Transformação Local dos Recursos Como Condição Para a Paz

A intervenção de Daniel Chapo encontrou correspondência na posição apresentada pela Comissão da União Africana durante o Fórum de Tana.

Numa mensagem do presidente da Comissão, Mahmoud Ali Youssouf, transmitida pela vice-presidente, Selma Malika Haddadi, a organização defendeu que a soberania económica africana exige maior capacidade para transformar recursos naturais em riqueza produtiva e benefícios sociais.

A Comissão sustentou que os minerais, os recursos agrícolas e a energia africanos devem gerar maior valor dentro das economias do continente, através de investimentos em processamento, infra-estruturas, competências técnicas e cadeias de valor regionais.

Na intervenção, divulgada em 24 de Outubro, a União Africana advertiu ainda que a ausência de benefícios concretos para as comunidades afectadas pela exploração mineira pode ampliar tensões sociais e comprometer a estabilidade.

A organização estabeleceu uma ligação entre a qualidade da governação dos recursos, a confiança nas instituições e a prevenção de conflitos.

Esta perspectiva acrescenta uma dimensão à defesa presidencial da protecção dos minerais estratégicos. A segurança física dos empreendimentos constitui uma condição necessária, mas a sustentabilidade da actividade extractiva também exige transparência contratual, distribuição equilibrada dos benefícios e oportunidades económicas para as comunidades.

A União Africana considera, por isso, que a governação dos recursos deve ser integrada nas políticas de paz e desenvolvimento, incluindo o combate aos fluxos financeiros ilícitos e o fortalecimento da capacidade dos Estados para mobilizar receitas internas.

Lei de Minas, Conteúdo Local e Banco de Desenvolvimento Integram a Estratégia Económica Moçambicana

No balanço da sua participação no Fórum, divulgado pela Presidência da República em 25 de Outubro, Daniel Chapo apresentou a diversificação económica e a valorização dos recursos naturais como componentes centrais da estratégia de desenvolvimento de Moçambique.

O Presidente apontou a Lei de Minas, a Lei de Petróleos, a Lei de Conteúdo Local e a criação do Banco de Desenvolvimento como instrumentos destinados a ampliar a participação nacional na economia extractiva e a consolidar a autonomia económica do país.

A referência ao conteúdo local assume particular importância perante a dimensão dos investimentos previstos nos sectores mineiro e energético.

A participação de empresas moçambicanas no fornecimento de bens, serviços, transporte, manutenção, engenharia e outras actividades associadas aos grandes projectos constitui um mecanismo potencial de transferência de valor para a economia doméstica.

Contudo, a expansão dessa participação exige capacidade produtiva, padrões técnicos competitivos e acesso a financiamento.

A criação de um banco de desenvolvimento, referida pelo Presidente, insere-se nesta problemática. Uma instituição financeira orientada para investimentos de longo prazo poderá contribuir para financiar empresas e projectos com potencial de integração nas cadeias de valor, desde que disponha de mecanismos sólidos de governação, avaliação de risco e sustentabilidade financeira.

Importa distinguir, entretanto, os instrumentos já existentes das reformas anunciadas ou em preparação. A referência presidencial a estes mecanismos não significa que todas as iniciativas legislativas e institucionais estejam plenamente implementadas.

A discussão também se articula com a Estratégia Africana para os Minerais Verdes, adoptada pela União Africana em 2025, que defende o processamento local, a industrialização regional e a integração das cadeias produtivas.

Em Julho de 2026, o AfDB voltou a defender, durante um fórum ministerial realizado em Abidjan, que os países africanos desenvolvam capacidade industrial para capturar maior valor dos minerais críticos, em vez de continuarem concentrados predominantemente na exportação de matérias-primas.

Experiência do Gana Entra na Agenda de Cooperação Mineira

À margem do Fórum de Tana, Daniel Chapo manteve encontros bilaterais com o Presidente do Gana, John Dramani Mahama, e com o Primeiro-Ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali.

Segundo a Presidência da República, a reunião com Mahama permitiu abordar a experiência ganesa na exploração e gestão dos recursos minerais, particularmente o ouro.

Chapo manifestou interesse em aproveitar essa experiência no processo de desenvolvimento do enquadramento mineiro moçambicano.

A aproximação apresenta interesse económico num momento em que Moçambique discute mecanismos de aproveitamento dos recursos minerais, formalização da actividade e melhoria da arrecadação e fiscalização do sector.

O Gana constitui uma referência regional pela dimensão da sua indústria aurífera e pela experiência acumulada na organização institucional do sector. O intercâmbio poderá abranger modelos de comercialização, fiscalização, formação técnica e gestão das receitas, embora os documentos divulgados não identifiquem compromissos específicos de investimento resultantes do encontro.

A dimensão bilateral da participação no Fórum demonstra que a agenda de soberania económica africana também pode traduzir-se em intercâmbio técnico e institucional entre países com experiências extractivas distintas.

Reforma do Conselho de Segurança da ONU Integra a Agenda de Soberania Africana

A defesa de maior participação africana nas decisões internacionais constituiu outra componente da intervenção presidencial.

Daniel Chapo considerou necessária a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, de modo a assegurar representação permanente de África e direito de veto.

O Presidente argumentou que a ausência dessa representação limita a influência do continente nas decisões sobre segurança internacional, incluindo conflitos que afectam directamente países africanos.

Na sua intervenção em Bahir Dar, afirmou que, enquanto África permanecer sem representação permanente naquele órgão, será difícil assegurar uma participação adequada nas decisões relacionadas com a segurança do continente.

O posicionamento está associado à discussão mais ampla sobre a reforma da arquitectura de governação mundial, incluindo a representatividade das economias africanas nas instituições multilaterais.

Embora a reforma do Conselho de Segurança tenha natureza essencialmente político-diplomática, a estabilidade internacional e a capacidade de resposta a conflitos também influenciam as condições de investimento, os custos de financiamento e a segurança das cadeias comerciais.

A posição presidencial coincide com a orientação apresentada pela União Africana, que defende maior autonomia institucional e capacidade de coordenação regional perante os desafios internacionais.

Ligação Adis Abeba–Nacala Acrescenta Dimensão Comercial à Visita

No balanço da sua deslocação à Etiópia, Chapo destacou ainda a ligação aérea entre Adis Abeba e Nacala, cujo primeiro voo estava previsto para terça-feira, 27 de Outubro.

O Presidente associou a nova rota à possibilidade de dinamizar o comércio, o turismo e as relações económicas na região norte de Moçambique.

A iniciativa apresenta interesse para a conectividade de Nacala com a rede internacional de transporte aéreo, particularmente através de Adis Abeba, um dos principais centros de ligações aéreas africanas.

A nova ligação poderá facilitar deslocações empresariais e turísticas e criar oportunidades para serviços associados à actividade aeroportuária.

O impacto económico dependerá, contudo, da regularidade das operações, da procura efectiva, dos custos das viagens e da capacidade de desenvolver ligações comerciais sustentáveis.

A abertura da rota foi anunciada como um desenvolvimento previsto para 27 de Outubro, não como uma operação já iniciada à data desta edição.

A Riqueza Mineral Africana Enfrenta Uma Questão de Capacidade Económica

A intervenção de Daniel Chapo no Fórum de Tana colocou em evidência a crescente relação entre recursos naturais, segurança e posicionamento geopolítico de África.

A procura internacional por minerais estratégicos, petróleo e gás amplia a importância económica do continente, mas também intensifica a competição pelo acesso às matérias-primas e pelas condições de participação nas respectivas cadeias produtivas.

A estratégia defendida pelo Presidente assenta na cooperação regional, na protecção dos recursos, no fortalecimento institucional e na transformação económica.

Os documentos do Fórum e as posições da União Africana indicam que a soberania económica envolve capacidade efectiva para definir prioridades, negociar investimentos, financiar infra-estruturas, regular a exploração e reter maior parcela do valor gerado.

Para Moçambique, a discussão ganha relevância pela coexistência de importantes reservas de gás natural, recursos minerais diversificados, necessidades elevadas de infra-estruturas e vulnerabilidades de segurança.

A experiência de Cabo Delgado demonstra os elevados custos económicos e humanos que podem acompanhar a instabilidade numa região de grande importância energética. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento dos projectos extractivos levanta exigências de conteúdo local, qualificação profissional e capacidade empresarial.

A questão central da soberania económica africana reside, assim, na diferença entre possuir recursos estratégicos e dispor de capacidade económica para determinar como são explorados, transformados e comercializados.

O valor geopolítico dos minerais africanos está a aumentar. A parcela desse valor que permanecerá nas economias produtoras será definida, sobretudo, pela capacidade de negociação dos Estados, pela estrutura dos contratos, pelo desenvolvimento de fornecedores nacionais e pela criação de actividades industriais que prolonguem a cadeia de valor para lá da extracção.

A mensagem de Bahir Dar coloca essa discussão no cruzamento entre a política de segurança e a estratégia de desenvolvimento, num momento em que as principais economias mundiais intensificam os esforços para garantir acesso estável aos recursos necessários às suas transformações industriais e energéticas.

O
Redacção

Oeconomico

Informação e análise económica sobre Moçambique e a África Austral.

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