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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2026
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Zâmbia Liga Central Solar de 100 MW à Rede Eléctrica Com Investimento de US$ 90 Milhões e Reduz Dependência das Hidroeléctricas

O projecto solar de Maamba, desenvolvido por uma parceria entre a zambiana ZCCM Investments Holdings e o grupo indiano Nava, iniciou a injecção de electricidade na rede nacional, reforçando a diversificação energética do país. O investimento de aproximadamente US$ 90 milhões dispõe de um contrato de fornecimento à ZESCO por 20 anos e surge num momento em que a dependência da geração hidroeléctrica expõe a economia zambiana às secas. O empreendimento acrescenta uma nova dimensão à segurança energética da África Austral e ao debate sobre a complementaridade entre fontes de geração na região.

O
Redacção
26 Out 2026 · 10h15
13 minutos
71
Linhas de transporte de electricidade ao pôr-do-sol

Questões-Chave:

  • Central solar fotovoltaica de Maamba, com capacidade de 100 MW, iniciou a injecção de electricidade na rede zambiana em 24 de Setembro de 2026;
  • Investimento de aproximadamente US$ 90 milhões resulta de uma parceria em que a ZCCM-IH detém 35% e a Nava Global 65%;
  • Projecto dispõe de contrato de compra de energia por 20 anos com a empresa pública ZESCO, à tarifa anunciada de US$ 0,078 por kWh;
  • Nova capacidade solar permitirá diversificar o sistema eléctrico da Zâmbia, fortemente dependente da produção hidroeléctrica;
  • Integração de energia solar, geração térmica e sistemas hidroeléctricos ganha importância estratégica num contexto de riscos climáticos e procura crescente do sector mineiro.

A Zâmbia deu um novo passo na diversificação da sua matriz energética com o início da injecção de electricidade na rede nacional a partir da central solar fotovoltaica de Maamba, um investimento de aproximadamente US$ 90 milhões desenvolvido no distrito de Sinazongwe, na Província do Sul.

O empreendimento, com capacidade instalada de 100 megawatts (MW), começou a fornecer energia à rede em 24 de Setembro de 2026, iniciando a fase de comissionamento técnico necessária à entrada em operação comercial plena.

A informação foi confirmada pela ZCCM Investments Holdings (ZCCM-IH), empresa de investimentos com participação estatal zambiana, num comunicado divulgado a 25 de Setembro e posteriormente desenvolvido numa comunicação institucional publicada em Outubro.

O projecto foi desenvolvido pela Maamba Solar Energy Limited (MSEL), sociedade em que a ZCCM-IH detém 35% do capital e a Nava Global PTE Limited, subsidiária internacional do grupo indiano Nava Limited, controla os restantes 65%.

Localizada junto às operações termoeléctricas existentes em Maamba, a nova instalação solar integra um esforço de diversificação da oferta eléctrica, num país onde a elevada dependência da energia hidroeléctrica tem ampliado a exposição do sistema às variações climáticas.

A primeira injecção de energia constitui um marco operacional importante, embora a central ainda tenha de concluir os testes de desempenho, sincronização, fiabilidade e conformidade técnica antes da operação comercial plena.

A distinção é relevante: a capacidade nominal de 100 MW corresponde à potência instalada da central, não significando que a instalação tenha passado a fornecer continuamente esse volume de energia desde Setembro.

Investimento de US$ 90 Milhões Combina Capital Zambiano e Indiano

A estrutura accionista de Maamba reflecte um modelo de participação conjunta entre capital nacional e investimento estrangeiro, assente numa parceria empresarial de longo prazo.

A ZCCM-IH, com 35% da sociedade, participa no empreendimento ao lado da Nava Global, que detém uma posição maioritária de 65%.

A Nava Limited, cotada nos mercados accionistas indianos, apresentou o projecto como um marco na diversificação do seu portefólio de geração energética, tradicionalmente associado a operações industriais e termoeléctricas.

Para o grupo, a central representa uma expansão da actividade no segmento das energias renováveis de escala comercial, num mercado africano caracterizado por necessidades crescentes de electricidade.

Central Solar de Maamba | Indicadores do Projecto

Indicador Valor
Investimento totalUS$ 90 milhões
Potência instalada100 MW
Contrato com a ZESCO20 anos
Tarifa contratual reportadaUS$ 0,078 por kWh
Estrutura accionistaZCCM-IH 35% · Nava Global 65%

Fontes: ZCCM-IH, Nava Limited e informação do projecto publicada em Outubro de 2026.

O investimento incorpora módulos fotovoltaicos bifaciais montados sobre sistemas de seguimento solar de eixo único, permitindo que os painéis acompanhem a posição do sol durante o dia e aumentem a captação de radiação.

A central dispõe igualmente de uma subestação dedicada de 330 quilovolts e de infra-estruturas de interligação ao sistema eléctrico nacional.

O recurso a estas tecnologias visa melhorar o aproveitamento da capacidade instalada e assegurar condições técnicas para a entrega da energia à rede.

A estrutura financeira apresenta outro elemento relevante: a existência de um contrato de aquisição de energia de longo prazo com a ZESCO, a empresa pública de electricidade.

Contrato de 20 Anos Com a ZESCO Assegura Previsibilidade de Receitas

A Maamba Solar Energy Limited celebrou um contrato de compra de energia (Power Purchase Agreement, PPA) por 20 anos com a ZESCO, abrangendo a produção da central.

Segundo as informações do empreendimento, a tarifa contratual foi estabelecida em US$ 0,078 por quilowatt-hora, equivalente a US$ 78 por megawatt-hora.

O mecanismo assegura um enquadramento comercial para a venda da electricidade, oferecendo maior previsibilidade sobre as receitas futuras e reduzindo parte dos riscos associados à comercialização da produção.

Esta previsibilidade é particularmente importante em projectos de geração energética, caracterizados por elevados investimentos iniciais e receitas distribuídas ao longo de períodos prolongados.

A bancabilidade de uma central eléctrica está associada à capacidade de os financiadores avaliarem, com razoável segurança, os fluxos de caixa necessários para remunerar o capital investido e assegurar o cumprimento das obrigações financeiras.

O contrato com a ZESCO reduz o risco de ausência de comprador para a energia gerada, embora permaneçam factores associados à disponibilidade técnica da instalação, ao recurso solar, à capacidade da rede e ao risco de pagamento da entidade adquirente.

Importa igualmente distinguir potência instalada de energia efectivamente vendida. A produção anual depende da radiação solar, do desempenho dos equipamentos, da disponibilidade operacional e de eventuais restrições de despacho.

Por isso, a capacidade nominal de 100 MW e a tarifa anunciada não são suficientes, isoladamente, para determinar as receitas anuais ou a rentabilidade do investimento.

O projecto apresenta, ainda assim, uma estrutura comercial relevante para investidores interessados em energias renováveis em mercados africanos, combinando participação empresarial nacional, capital estrangeiro e um comprador de energia identificado por contrato.

Seca e Dependência Hidroeléctrica Aceleram a Diversificação Energética

A entrada de Maamba na rede eléctrica responde a uma vulnerabilidade estrutural da economia zambiana: a concentração da produção de electricidade nas centrais hidroeléctricas.

Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a energia hidroeléctrica representava aproximadamente 81% da capacidade instalada do país em Outubro de 2025, enquanto as fontes térmicas e solares contribuíam com cerca de 8% cada.

A distribuição torna o sistema particularmente vulnerável à irregularidade das chuvas e às oscilações dos níveis de armazenamento de água nas principais albufeiras, sobretudo na bacia do Zambeze.

A seca severa de 2024 demonstrou a dimensão desses riscos. O Banco Mundial estima que a capacidade de produção efectivamente disponível foi reduzida em aproximadamente um terço, comprometendo o abastecimento a famílias, pequenas empresas e serviços públicos.

O FMI assinala que, em Setembro de 2024, a geração eléctrica correspondeu a apenas 27% da capacidade instalada, num momento em que o nível da albufeira de Kariba se aproximava do limite mínimo de operação.

A situação obrigou o país a aumentar as importações de electricidade e a recorrer a fontes alternativas de produção, com custos superiores aos da geração hidroeléctrica em condições hidrológicas normais.

O problema também afectou a competitividade económica.

O Banco Mundial identifica a mineração como responsável por aproximadamente metade do consumo nacional de electricidade, o que demonstra a importância do abastecimento energético para a indústria do cobre e outras actividades extractivas.

A prioridade de fornecimento atribuída às grandes operações mineiras durante os períodos de escassez contribuiu para transferir parte substancial das restrições de consumo para famílias, pequenos negócios e serviços públicos.

ZCCM-IH Associa Investimento Solar à Segurança Energética e ao Risco de El Niño

Kakenenwa Muyangwa, director-executivo da ZCCM-IH, considerou que a entrada em funcionamento inicial da central ocorre num momento particularmente importante, dada a possibilidade de novas condições associadas ao fenómeno climático El Niño exercerem pressão sobre a geração hidroeléctrica.

Em declarações divulgadas pela empresa, Muyangwa classificou os 100 MW solares como uma resposta directa e oportuna às necessidades de segurança energética da Zâmbia.

O responsável destacou igualmente que o investimento permitirá diversificar a matriz eléctrica e diminuir a exposição à dependência de uma fonte predominante.

A ZCCM-IH enquadra Maamba na ambição nacional de aumentar a capacidade instalada de produção eléctrica para 10.000 MW, uma meta de longo prazo que exigirá investimentos adicionais em diferentes fontes de geração e infra-estruturas de transporte.

A importância do projecto reside na complementaridade que estabelece com a geração hidroeléctrica.

Durante as horas de maior disponibilidade solar, a central poderá substituir parte da produção hidroeléctrica, permitindo conservar água nas albufeiras quando as condições de operação e de despacho o tornarem possível.

Este mecanismo pode contribuir para melhorar a gestão dos recursos hídricos e reduzir a exposição do sistema aos períodos de menor precipitação.

Contudo, a produção fotovoltaica apresenta variabilidade diária, pelo que a expansão da energia solar necessita de ser acompanhada por capacidade de regulação, sistemas de armazenamento, geração complementar ou interligações regionais capazes de equilibrar a oferta e a procura.

Banco Mundial Identifica Fragilidade Financeira da ZESCO Como Obstáculo ao Investimento

A diversificação da produção eléctrica não resolve, isoladamente, os problemas estruturais do sector energético zambiano.

Numa análise dedicada à transformação do sistema eléctrico do país, o Banco Mundial identifica a fragilidade financeira da ZESCO como um dos principais obstáculos à expansão sustentada da oferta.

Segundo a instituição, as tarifas historicamente inferiores aos custos de recuperação, as perdas operacionais, as dificuldades de cobrança e os encargos com importações de energia reduziram a capacidade financeira da empresa pública.

O Banco Mundial considera que esta situação afecta a manutenção das infra-estruturas, limita os investimentos em novas instalações e aumenta os riscos fiscais associados ao sector.

A avaliação ganha especial relevância para o projecto de Maamba, cujo modelo comercial assenta num contrato de compra de energia de 20 anos com a ZESCO.

A existência de um contrato de longo prazo cria previsibilidade para o investidor, mas a qualidade financeira do comprador é determinante para a sustentabilidade dos pagamentos ao longo do período contratual.

Num relatório sobre a resiliência climática da Zâmbia, publicado em Abril, o Banco Mundial defendeu maior mobilização de investimento privado, acompanhada por um ambiente regulatório previsível e mecanismos eficazes de mitigação de riscos.

Achim Fock, representante da instituição na Zâmbia, sublinhou que os riscos climáticos já estão a influenciar os resultados económicos do país, tornando necessários investimentos e reformas capazes de proteger a actividade produtiva e o emprego.

O investimento de Maamba insere-se neste processo de expansão da oferta energética, mas a sustentabilidade do sistema dependerá igualmente das reformas comerciais e financeiras das empresas responsáveis pela compra, transporte e distribuição de electricidade.

Mineração de Cobre Aumenta a Importância de Uma Oferta Eléctrica Diversificada

A expansão da capacidade de geração energética zambiana apresenta uma relação directa com as perspectivas de crescimento do sector mineiro.

A Zâmbia é um dos principais produtores africanos de cobre, matéria-prima cuja importância internacional aumentou com a electrificação dos transportes, a expansão das redes eléctricas e o investimento em novas infra-estruturas tecnológicas.

A mineração e o processamento de minerais exigem fornecimento contínuo e fiável de electricidade, tornando a segurança energética uma condição fundamental para a concretização de novos investimentos.

A redução das interrupções de fornecimento pode diminuir os custos associados à geração própria, limitar perdas de produção e melhorar a utilização da capacidade instalada das empresas.

O Banco Mundial assinala que as ambições de expansão da produção de cobre, industrialização e crescimento económico dependem directamente da disponibilidade de energia a custos competitivos.

Neste contexto, a central solar de Maamba representa um contributo adicional para o sistema, mas a sua capacidade de 100 MW deve ser apreciada relativamente à escala das necessidades nacionais.

Em declarações parlamentares divulgadas em 2026, o Ministério da Energia indicou que a procura eléctrica nacional se situava em aproximadamente 2.400 MW, enquanto a oferta disponível, incluindo importações, permanecia abaixo desse nível.

Esta diferença mostra que a adição de capacidade solar será relevante, mas insuficiente para resolver integralmente o desequilíbrio entre oferta e procura.

Integração Eléctrica da África Austral Ganha Importância Perante Choques Climáticos

A experiência da Zâmbia apresenta implicações que ultrapassam as suas fronteiras.

A África Austral dispõe de sistemas eléctricos com diferentes combinações de recursos hidroeléctricos, solares, térmicos e outras fontes de geração.

A integração regional permite, em determinadas circunstâncias, compensar défices temporários de produção através da importação de electricidade de países com capacidade disponível.

O Banco Mundial identifica o comércio regional de energia como um instrumento importante para reduzir a exposição individual dos países a choques climáticos e melhorar a segurança do abastecimento.

A diversificação da geração zambiana poderá diminuir parte das necessidades de importação durante os períodos de maior produção solar, libertando capacidade regional para outros consumidores.

A relevância desta dinâmica é particularmente evidente no contexto do Southern African Power Pool (SAPP), mecanismo de coordenação e comércio regional de electricidade.

Para Moçambique, que dispõe de importante capacidade hidroeléctrica e de oportunidades de investimento em outras fontes energéticas, o desenvolvimento do mercado regional coloca em evidência o valor económico da complementaridade entre sistemas.

A energia hidroeléctrica apresenta capacidade de regulação quando existem condições hidrológicas adequadas, enquanto as fontes solares podem contribuir para diversificar a oferta durante os períodos diurnos.

Contudo, a ocorrência de secas em diferentes países da bacia do Zambeze também demonstra que a dependência regional de recursos hidrológicos semelhantes pode criar riscos correlacionados.

Uma estratégia de integração energética necessita, por isso, de considerar a diversidade das fontes, a capacidade de transporte transfronteiriço e os mecanismos comerciais que asseguram a disponibilidade de energia nos momentos de maior necessidade.

Maamba Demonstra Como a Segurança Energética Está a Alterar os Modelos de Investimento

O projecto solar de Maamba introduz três elementos relevantes para a evolução do investimento energético na África Austral.

O primeiro é a combinação de capital nacional e internacional numa instalação de geração renovável de escala comercial.

O segundo é a existência de um contrato de compra de energia de longo prazo, destinado a proporcionar estabilidade comercial ao investimento.

O terceiro é a localização junto de instalações termoeléctricas existentes, o que permite integrar diferentes tecnologias numa mesma zona de produção e aproveitar oportunidades de complementaridade operacional.

A entrada inicial de electricidade na rede, em Setembro, constitui um marco na execução do projecto, mas o seu desempenho efectivo ainda terá de ser confirmado através da conclusão dos testes e do início da exploração comercial plena.

A experiência zambiana evidencia uma alteração na economia da geração eléctrica: a diversificação energética passou a assumir valor estratégico na gestão do risco climático e na garantia de continuidade da actividade produtiva.

A produção hidroeléctrica permanece fundamental para o sistema zambiano, mas as secas recentes demonstraram os custos de uma dependência excessiva desta fonte.

Com 100 MW de capacidade solar e um contrato comercial de 20 anos, Maamba acrescenta uma alternativa de geração a um sistema marcado por restrições hidrológicas. O benefício económico mais relevante será a quantidade de energia adicional efectivamente entregue à rede durante os períodos críticos e a redução dos custos de abastecimento que essa produção permitir.

A conclusão dos testes de desempenho e a entrada em operação comercial constituirão os próximos marcos para avaliar a contribuição do investimento de US$ 90 milhões para a segurança energética zambiana.

O
Redacção

Oeconomico

Informação e análise económica sobre Moçambique e a África Austral.

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