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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2026
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Maior Roubo de Activos Digitais Alguma Vez Registado Rende US$ 6,3 Mil Milhões aos Piratas Informáticos 

O
Redacção
30 Out 2026 · 12h55
11 minutos
94
  • Maior roubo de activos digitais alguma vez registado coloca em evidência os riscos de segurança das plataformas centralizadas. Investigadores norte-americanos apontam para hackers ligados à Coreia do Norte, enquanto a Binance promete cobrir integralmente as perdas e mobiliza parceiros para recuperar os fundos.
QUESTÕES-CHAVE
  • US$ 6,3 mil milhões desviados num ataque informático à maior plataforma mundial de negociação de criptomoedas;
  • Cerca de US$ 3 mil milhões bloqueados, através da intervenção de empresas emissoras de stablecoins e parceiros tecnológicos;
  • Coreia do Norte apontada como principal suspeita, segundo análises das empresas TRM Labs e Chainalysis;
  • Bitcoin e ether registam quedas acentuadas, enquanto empresas cotadas ligadas ao sector também sofrem desvalorizações;
  • Binance compromete-se a cobrir integralmente as perdas, embora o valor do ataque ultrapasse largamente o seu fundo de protecção dos utilizadores.

Maior Ataque da História das Criptomoedas Abala Confiança dos Investidores

O mercado mundial de criptomoedas sofreu um novo abalo esta sexta-feira, 30 de Outubro, após a confirmação de um ataque informático à Binance que resultou no desvio de aproximadamente US$ 6,3 mil milhões em activos digitais, estabelecendo um recorde histórico de perdas associadas a operações de pirataria informática neste mercado.

O incidente, ocorrido na noite de quinta-feira, 29 de Outubro, desencadeou uma reacção imediata nos mercados, provocando a desvalorização das principais criptomoedas, a suspensão temporária de levantamentos na Binance e uma operação internacional de rastreamento e bloqueio de fundos.

Segundo a Reuters, a dimensão do ataque e a velocidade com que os activos foram movimentados suscitaram preocupações sobre a segurança das plataformas de negociação centralizadas, particularmente num momento em que os activos digitais procuram consolidar a sua presença entre investidores institucionais e operadores financeiros tradicionais.

A Binance, que contabiliza 335 milhões de utilizadores registados em todo o mundo, assegurou que os fundos dos seus clientes estão protegidos e assumiu o compromisso de compensar integralmente as perdas associadas ao incidente.

A plataforma confirmou igualmente que cerca de US$ 3 mil milhões dos activos afectados já tinham sido bloqueados através da colaboração com empresas especializadas em tecnologia blockchain e instituições emissoras de moedas digitais estáveis.

O ataque levanta, entretanto, uma questão de maior alcance para a indústria: até que ponto as estruturas de segurança e de custódia das principais plataformas conseguem acompanhar a crescente dimensão financeira dos activos digitais?

Coreia do Norte Apontada Como Principal Suspeita

As investigações preliminares das empresas norte-americanas TRM Labs e Chainalysis identificaram semelhanças relevantes entre o ataque à Binance e operações anteriores atribuídas a grupos de pirataria informática associados à Coreia do Norte.

De acordo com a TRM Labs, os responsáveis conseguiram movimentar aproximadamente US$ 6,36 mil milhões através de dez redes blockchain, com a maior parte das transferências executadas num intervalo de cerca de 20 minutos.

A empresa atribuiu a operação ao grupo TraderTraitor, uma unidade de pirataria informática alegadamente associada ao aparelho estatal norte-coreano, manifestando um elevado grau de confiança nesta identificação.

O ataque apresenta características semelhantes às observadas na ofensiva contra a plataforma Bybit, em Fevereiro de 2025, que resultou no desvio de aproximadamente US$ 1,5 mil milhões e cuja responsabilidade foi atribuída à Coreia do Norte pelo Federal Bureau of Investigation (FBI), dos Estados Unidos.

As autoridades norte-americanas e sul-coreanas têm acusado repetidamente Pyongyang de utilizar operações cibernéticas para obter recursos financeiros e contornar sanções internacionais. O Governo norte-coreano tem rejeitado historicamente estas acusações.

A Binance, por sua vez, esclareceu que a sua investigação ainda não identificou formalmente os responsáveis, mantendo a cooperação com autoridades policiais e especialistas em análise de transacções blockchain.

Esta distinção é relevante: a atribuição do ataque à Coreia do Norte assenta, nesta fase, nas conclusões de empresas independentes de investigação, não constituindo uma confirmação definitiva por parte da plataforma afectada.

Computador de Engenheiro Poderá Ter Permitido Acesso aos Sistemas

A investigação inicial da Binance identificou como possível ponto de entrada um computador portátil comprometido pertencente a um engenheiro da área de operações tecnológicas.

Segundo uma comunicação oficial publicada pela empresa, os atacantes poderão ter utilizado esse equipamento para aceder a um dos seus sistemas internos e iniciar transacções de levantamento não autorizadas.

A plataforma afirmou não ter encontrado, até ao momento, evidências de divulgação das chaves privadas das carteiras digitais afectadas, embora a investigação técnica continue.

A hipótese de comprometimento de um equipamento individual evidencia a importância dos mecanismos internos de controlo de acessos, autorização de operações e segregação de funções em instituições responsáveis pela custódia de activos financeiros.

O antigo responsável pela plataforma japonesa Mt. Gox, Mark Karpeles, citado pela Reuters, observou que a distribuição dos activos por diferentes sistemas pode limitar a extensão de um ataque, sem eliminar a possibilidade de perdas financeiras de grande magnitude.

O precedente da Mt. Gox, que entrou em colapso após um roubo de aproximadamente US$ 500 milhões em bitcoin, permanece uma das referências históricas sobre os riscos de custódia no mercado de criptomoedas.

A Binance anunciou que divulgará um relatório técnico detalhado depois de concluída a investigação, acompanhado de uma actualização das suas demonstrações de reservas.

Bitcoin Cai Para Mínimo de Seis Semanas e Acções do Sector Recuam

A dimensão do ataque desencadeou uma reacção negativa nos mercados de activos digitais, num contexto já caracterizado por taxas de juro elevadas nos Estados Unidos e por uma menor intensidade da procura institucional através dos fundos de investimento cotados em bolsa (ETF).

O bitcoin, principal criptomoeda mundial em capitalização de mercado, recuou para US$ 76.368, atingindo o valor mais baixo das últimas seis semanas. O ether, segunda maior criptomoeda, perdeu mais de 3%, descendo para US$ 2.178, um mínimo de aproximadamente dois meses.

O BNB, activo digital originalmente lançado como Binance Coin, registou uma desvalorização de 5% em 24 horas, para US$ 709,70.

MERCADO DE CRIPTOMOEDAS | 30 DE OUTUBRO DE 2026

Bitcoin

US$ 76.368

Mínimo de 6 semanas

Ether

US$ 2.178

Queda superior a 3%

BNB

US$ 709,70

-5% em 24 horas

Valores reportados pela Reuters durante a reacção inicial dos mercados, não correspondendo necessariamente às cotações actuais.

Os efeitos estenderam-se às empresas cotadas em bolsa com exposição ao mercado de criptomoedas. As acções da Coinbase Global recuaram 4,8%, apesar de a empresa ter informado que não tinha sido afectada pelo incidente, enquanto os títulos da Strategy, conhecida pelas suas participações em bitcoin, perderam quase 6% nas negociações fora do horário regular.

Aravind Srinivasan, da empresa de negociação GSR, classificou o incidente, em declarações à Reuters, como «o maior ataque informático da história», numa referência à dimensão financeira dos activos desviados.

A reacção dos investidores evidencia um risco de contágio associado à confiança. Embora a falha tenha ocorrido numa plataforma específica, as desvalorizações atingiram activos e empresas que não estiveram directamente envolvidos no incidente.

Recuperação de US$ 3 Mil Milhões Expõe Diferenças Entre Activos Digitais

Uma das particularidades do incidente foi a velocidade com que algumas empresas emissoras de stablecoins conseguiram bloquear activos associados às carteiras utilizadas pelos atacantes.

A Tether anunciou o congelamento de aproximadamente US$ 1,57 mil milhões, enquanto a Circle bloqueou mais de US$ 800 milhões. Outras empresas, incluindo a Ripple e entidades associadas à World Liberty Financial, participaram nas operações de contenção.

Segundo a Binance, cerca de US$ 3 mil milhões dos activos afectados encontravam-se congelados através da colaboração com parceiros do ecossistema blockchain.

O montante representa aproximadamente 47,6% do valor total do ataque. Permanecia, por conseguinte, uma exposição estimada em US$ 3,3 mil milhões cujo estatuto de recuperação não estava esclarecido no momento das primeiras comunicações.

O congelamento dos activos não significa, contudo, que os respectivos valores tenham sido efectivamente recuperados ou devolvidos à Binance.

A operação também evidencia uma diferença importante entre categorias de activos digitais. As stablecoins emitidas por entidades centralizadas podem, em determinadas circunstâncias, ser bloqueadas através dos mecanismos de controlo dos respectivos emissores. Em contrapartida, activos como o bitcoin não dispõem de uma entidade emissora com poderes equivalentes para suspender unilateralmente transferências.

Esta diferença assume particular relevância na discussão sobre segurança, rastreabilidade, protecção patrimonial e intervenção regulatória nos mercados descentralizados.

Fundo de Protecção de US$ 1 Mil Milhões É Insuficiente Face à Dimensão do Ataque

A Binance comprometeu-se a assumir a totalidade das perdas, recorrendo ao seu fundo de protecção dos utilizadores, conhecido pela sigla SAFU, e aos recursos financeiros próprios da empresa.

O fundo, constituído para responder a incidentes de segurança, possui uma reserva anunciada de aproximadamente US$ 1 mil milhões, integralmente denominada em bitcoin.

O valor do ataque corresponde, assim, a 6,3 vezes a dimensão desse mecanismo de protecção.

Segundo o relatório anual de 2025 da plataforma, a Binance mantinha aproximadamente US$ 162,8 mil milhões em activos sob custódia, o que permite dimensionar o incidente relativamente ao volume de recursos administrados.

O montante desviado equivale a cerca de 3,9% desses activos, embora a comparação utilize valores de referência de períodos diferentes e não represente uma medição actualizada das reservas da empresa.

A promessa de compensação constitui uma resposta importante para os clientes, mas também cria um compromisso financeiro extraordinário para a plataforma.

A capacidade de cumprir integralmente esse compromisso estará associada à disponibilidade dos recursos próprios, à recuperação efectiva dos activos bloqueados e à evolução das necessidades de liquidez da empresa.

A Binance anunciou a suspensão temporária dos levantamentos enquanto procede a verificações de segurança, prevendo a retoma dos serviços num horizonte de 48 horas, segundo a informação divulgada durante a manhã desta sexta-feira.

Segurança das Plataformas Centralizadas Volta ao Debate Regulatório

O incidente ocorre num momento em que o mercado internacional de activos digitais continua a desenvolver mecanismos de integração com o sistema financeiro tradicional.

A entrada de investidores institucionais, a expansão dos fundos cotados e o crescimento das aplicações financeiras baseadas em blockchain têm aumentado as exigências de segurança operacional e de transparência das plataformas de negociação e custódia.

Tim Sun, investigador sénior do HashKey Group, em Hong Kong, advertiu, em declarações à Reuters, que o incidente poderá reduzir a apetência dos investidores pelo risco e incentivar uma reavaliação da segurança dos activos mantidos em plataformas centralizadas.

A advertência assume especial importância perante a dimensão financeira do sector e a concentração de volumes de negociação e custódia num número relativamente reduzido de operadores internacionais.

Em 2025, segundo dados da TRM Labs citados pela Reuters, os ataques informáticos ao sector das criptomoedas resultaram no desvio de aproximadamente US$ 2,9 mil milhões, distribuídos por cerca de 150 incidentes.

O ataque à Binance ultrapassou, isoladamente, o dobro desse montante anual.

DIMENSÃO DOS ROUBOS DE CRIPTOMOEDAS

Fonte: TRM Labs e Reuters. Valores aproximados em mil milhões de US$.

Comparação entre os roubos reportados para todo o ano de 2025 e o montante estimado de um único ataque em Outubro de 2026.

Para os reguladores financeiros, o episódio introduz novas questões sobre requisitos mínimos de capital, mecanismos de compensação, auditoria dos sistemas de custódia e responsabilidade das plataformas perante perdas decorrentes de falhas tecnológicas.

Estas preocupações são igualmente pertinentes para economias africanas onde os activos digitais têm vindo a ganhar expressão nas operações de investimento, transferência de valores e pagamentos transfronteiriços, frequentemente num quadro de supervisão ainda em desenvolvimento.

Um Ataque Que Pode Alterar as Exigências de Custódia Digital

A dimensão financeira do ataque à Binance coloca a segurança operacional entre os principais factores de avaliação do risco associado aos activos digitais.

A investigação terá de esclarecer como um acesso inicialmente associado a um computador individual poderá ter permitido movimentações de milhares de milhões de dólares, quais os mecanismos internos de autorização comprometidos e por que razão as operações não foram interrompidas antes de atingirem esta escala.

A resposta da indústria também será determinante para compreender os limites dos mecanismos de recuperação dos activos desviados.

O facto de aproximadamente metade do montante ter sido bloqueado demonstra a capacidade de intervenção coordenada entre algumas entidades do ecossistema digital. Em simultâneo, a parcela ainda não recuperada evidencia os limites dessa capacidade, especialmente perante activos sem mecanismos centralizados de congelamento.

Para a Binance, o incidente representa um desafio financeiro, tecnológico e reputacional de grande dimensão. Para o mercado internacional de criptomoedas, abre um novo capítulo na discussão sobre segurança, supervisão e responsabilidade das instituições que administram volumes crescentes de património digital.

Com US$ 6,3 mil milhões envolvidos numa única operação, a escala financeira dos ataques passou a exigir mecanismos de protecção compatíveis com os de grandes infra-estruturas do sistema financeiro internacional.

O
Redacção

Oeconomico

Informação e análise económica sobre Moçambique e a África Austral.

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